Poetas e romancistas são nossos aliados e seu testemunho deve ser altamente estimado, pois eles conhecem muitas coisas entre céu e terra com que nossa sabedoria escolar não poderia ainda sonhar”.

Freud, S. (1980[1906-1907]). “Delírios e Sonhos na Gradiva de Jansen”. In Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, vol. IX, pp.14-88. 3

“Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça todas as mães se reconheçam e que fale como dois olhos. Eu preparo uma canção que faça acordar os Homens e adormecer as crianças”
Drummond de Andrade, C. (1969). Reunião. Rio de Janeiro: Editora José Olympio.

A linguagem artística, em cada estilo peculiar, transforma emoções em sentidos para seu público, criando, assim, um laço social entre público e artista.

da clínica psicanalítica atual com mulheres e a toxicomania são abordados pelo cancioneiro da jovem inglesa Amy Winehouse.

A linguagem artística, em suas diversas expressões – música, poesia, cinema, pintura, etc. – transforma emoções em sentidos para seu público, criando, assim, um laço social entre este e o artista.

Para Freud, o artista tenta, através de sua obra, dar sentido ao real sem sentido buscando transmitir àqueles que a apreciam uma sensação semelhante àquela sentida por ele no momento da criação. Vemos que o artista o faz intuitivamente, buscando muitas vezes esse efeito, como nos relata o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade:

Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça. Todas as mães se reconheçam e que fale como dois olhos. Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças³.

Algumas obras são leituras aguçadas da época em que vivemos. A abordagem da delinquência e a toxicomania, na década de 90, pelo viés da heroína, foram exploradas por Boyle em seu filme Trainspotting (4).

Uma obra pode refletir o mal-estar na cultura e seus modos de gozo, dentre eles um modo peculiar de gozo na atualidade – o cínico, presente na toxicomania.

Segundo Lacan, algumas obras expressam com mais clareza a vertente real do sintoma do artista, por ele grafada sinthoma, como a de Joyce, escritor inglês e minimalista, que se utiliza de l’elanguas (5). Em outros, o sinthoma se exibe encarnado no corpo do artista, como vemos na body art e mesmo no suicídio durante a performance, como acentua Silva (6).

Mas nem sempre a tentativa de tratar o real por meio do simbólico consegue se traduzir num saber-fazer singular, como o de Fernando Pessoa (7):

O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.

Referindo-se à toxicomania, Freud diz que a intoxicação pelo uso de droga surge como uma maneira eficaz de lidar com o mal-estar, proveniente das vicissitudes da vida que causam sofrimento advindo de:

[…] nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução […]; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens (8).

A resposta dos sujeitos a esse imperativo é o que se chama de novas formas de mal-estar, que apresentam um caráter compulsivo, excessivo, próprio da busca de uma satisfação pulsional incontornável que muitas vezes pode arrastar o sujeito à própria destruição.

Segundo Coelho dos Santos (9), esses sintomas exibem a face do objeto pulsional da constituição subjetiva que, nos sintomas modernos ou freudianos, estariam recalcados. Sob a égide do capitalismo instaura-se um novo imperativo na cultura, pois não se trata mais de proibir. O novo mandamento super egoico é que o sujeito pode e deve gozar de tudo.

A toxicomania, como uma patologia social, é um sintoma do homem moderno que, imerso no discurso capitalista e de consumo, busca sua forma particular de obter satisfação com aquilo que tem – seu corpo, como evidencia Lacan: “ter um corpo é poder fazer alguma coisa com […]”¹°. Poderíamos supor ainda que, em alguns casos, como postula Miller¹¹, os sujeitos ditos “adictos”, artistas ou não, podem ficar atados ao seu parceiro-sintoma. O artista, como um personagem deslocado de si mesmo, pode se utilizar da linguagem para exibir seu modo singular de gozo.

Na atualidade, a compositora e cantora de jazz inglesa Amy Jade Winehouse, de 26 anos, apresenta um cancioneiro sui generis sobre o tema que nos interessa. Foi várias vezes premiada em 2008: cantora revelação, além de mais quatro prêmios no Grammy Award¹². Suas canções, seu estilo e sua voz marcam uma época na cultura global, além de exibir o discurso social sobre o abuso de drogas na atualidade. Foi-lhe negado o visto de entrada nos Estados Unidos da América para receber os prêmios acima referidos. Fez, porém, sua performance artística, ao vivo – via satélite de Londres, quando cantou a música Rehab¹³, de seu segundo álbum Black to Black. Essa canção sintetiza, como outras, sua visão da toxicomania e sua recusa de aceitar um tratamento convencional, de base cognitivista (terapia comportamental):

They tried to make me go to rehab

But I said ‘no, no, no’

Yes, I’ve been black, but when I come back

You’ll know-know-know

I ain’t got the time

And if my daddy thinks I’m fine

He’s tried to make me go to rehab

But I won’t go-go-go…

Seu nome wine+house, por si só, marca seu estilo e nos faz supor uma alusão a uma vertente de seu sintoma – a toxicomania. Além de belíssimas composições e interpretações intimistas, a cantora pop põe em cena o próprio corpo, em suas diversas passagens ao ato toxicomaníacas. Seu corpo, cruelmente emagrecido e devastado pelo abuso de crack e cigarros, é exibido e capturado por imagens que, inexoravelmente, são superfaturadas pela mídia(14) que explora ao máximo seus reais Rehabs.

Contudo, como compositora, Winehouse revela uma visão peculiar do feminino que encontramos na clínica contemporânea com mulheres, especialmente aquelas afetadas pela toxicomania.

A compositora traz para a cena musical temas como o lugar da mulher como objeto para o homem. Em suas canções alude à posição feminina, na qual a mulher se apresenta com aquilo que falta ao parceiro amoroso, respondendo assim aos imperativos de seu desejo, como salienta Lacan. Ressaltando ainda o que ele diz sobre o que um homem pode ser para a mulher: “não há limites às concessões que cada uma faz por um homem: do seu corpo, da sua alma, dos seus bens”(15).

O amor erotomaníaco da mulher e sua necessidade do homem amado, para situá-la em seu gozo ilimitado, a “depressão” advinda da dor pela perda dessa parceria amorosa com seu parceiro-devastação, o refúgio de seu mal-estar no álcool e outras drogas são temas cantados e também vividos em sua vida.

A canção What is about men alude ao seu “destino freudiano”, quando expõe o lugar da repetição em sua vida. Ela atribui sua escolha do “homem errado” à sua fixação no ódio de sua mãe, abandonada pelo marido quando ela era adolescente, e equipara esse ato a uma “coisa natural” para ela, assim como cantar:

Understand once he was a family man

so surely I would never, ever go through it first hand

Emulate all the shit my mother hated

I can’t help but demonstrate my Freudian fate

My alibi for taking your guy

history repeats itself, it fails to die

and animal aggression is my downfall

I don’t care ’bout what you got I wanted all

It’s bricked up in my head, it’s shoved under

my bed and I question myself again: what is it ’bout men?

My destructive side has grown a mile wide…

and I question myself again: what is it ’bout men?

I’m nurturing, I just wanna do my thing

and I’ll take the wrong man as naturally as I sing […].

Várias canções retratam a vivência da dor pela perda do parceiro amoroso como, por exemplo, “Back to Black”, uma réplica de sua relação cotidiana com o ex-marido, Blake Field:

He left no time to regret

Kept his dick wet

With his same old safe bet

Me and my head high

And my tears dry

Get on without my guy

You went back to what you knew

So far removed from all that we went through

And I tread a troubled track

My odds are stacked…

I’ll go back to black

We only said good bye with words

I died a hundred times

You go back to her

And I go back to […]

Nessa canção ela revela a devastação sentida quando o ser amado a deixa e os signos do amor ou do desejo se distanciam(16). Podemos observar, tanto na música como no videoclipe, esse estado de “luto”, no qual ela se deixa voluntariamente ser aspirada pela pulsão de morte. Winehouse exibe a sua dor manifesta no próprio corpo e também, como autora, na reinvenção do ato compulsivo e repetitivo de sua relação com a droga que escolheu.

Ela delineia, em suas canções, aquilo que Lacan alude sobre como a droga promove o rompimento com o faz-pipi(17) e, como uma latusa, ofertada como objeto de consumo e ilusão de completude, aspira o sujeito que, assim, acredita ter contornado a castração(18). Addicted ilustra magistralmente esse casamento do sujeito com a droga, que exclui o outro:

I’m my own man so when will you learn

That you got a man but I got to burn

Don’t make no difference if I end up alone

I’d rather have myself a smoke my homegrown

It’s got me addicted, does more than any dick did.

Vemos que esse gozo cínico, reflexo do discurso capitalista atual, deixa seus “doentes” encarnados como restos, segregados de si mesmos. Eles são tratados da mesma maneira pelas políticas de saúde e de saúde mental que, ao oferecerem tratamentos centrados na droga e em sua abstinência, os nomeiam de “drogaditos”, excluindo do sujeito aquilo que nele faz sintoma.

A capacidade da cantora de se reinventar, no meio de toda a sua realidade, torna-se evidente e permite construir, além de mais um capítulo de sua biografia, uma saída para esse gozo solitário. A arte pode construir um laço social, entre a obra do artista e seu público, mediado pelo Outro, como diz Lacan: “No desatino de nosso gozo só há o Outro para situá-lo […]”(19).

A arte e seu poder de transformar o sintoma, através de bem-dizê-lo²°, permite ao sujeito nomear-se “artista”, transmutar-se e inventar para si um nome, como Joyce (Lacan, 2007). Antecipa-se assim à análise, pois, além de transmitir um saber avant la lettre²¹, pode ser uma ponte para a construção do sujeito na sua análise individual ou mesmo em uma prática entre vários (o analista, o terapeuta ocupacional e as diversas oficinas de arte), segundo Di Ciaccia²².

A arte pode ser um norte para a busca de uma identidade além daquela postulada pela ciência em busca de um ideal esterilizante de normalidade, pois como canta Caetano Veloso: “de perto ninguém é normal”²³.

Cabe agora aos analistas traduzir para a sua arte – a de psicanalisar – o que os artistas nos revelam, como Gullar(24) em seu poema “Traduzir-se”:

Uma parte de mim é multidão;

outra parte estranheza e solidão.

Uma parte de mim é só vertigem;

outra parte, linguagem.

Traduzir uma parte na outra parte

que é uma questão de vida ou morte

Será arte?

 

Fontes: 

1. Artigo apresentado no Encontro entre Cartéis da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção São Paulo, em 2010.

2. Freud, S. (1980[1906-1907]). “Delírios e Sonhos na Gradiva de Jansen”. In Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, vol. IX, pp.14-88.

3. Drummond de Andrade, C. (1969). Reunião. Rio de Janeiro: Editora José Olympio.

4. Boyle, D. (1996). Trainspotting. [Filme]. Inglaterra. DVD, 16mm., 90 min. color. son.

5. Lacan, J. (2007[1975-1976]). O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 14. Lacan se utiliza dos escritos de Joyce, especialmente da obra Ulisses, para descrever os efeitos da linguagem ao discorrer sobre a lalação-lalíngua.

6. Silva, P. (2006). “O ataque ao corpo na body art”. Disponível em: http://www.iar.unicamp.br/extensao/aperfartesvisuais/priscilla01.pdf.

7. Pessoa, F. (1980). O Eu Profundo e os Outros Eus. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.

8. Freud, S. (1980[1929]). “O Mal-estar na civilização”. Op. cit., vol. XXI, pp. 81-178.

9. Coelho dos Santos, T. (2001). Quem precisa de análise hoje? Rio de Janeiro: Editora Bertrand.

10. Lacan, J. (2003[1974]). “Joyce, o Sintoma”. In Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 562.

11. Miller, J.-A. (2000). “A teoria do parceiro”. In Os circuitos do desejo na vida e na análise. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria.

12. Grammy Award é um prêmio da indústria musical internacional presenteado anualmente pela National Academy of Recording Arts and Sciences, nos Estados Unidos da América, honrando conquistas na arte de gravação musical e provendo suporte à comunidade da indústria musical. Disponível em: http://www.grammy.com/videos/50th-annualgrammy-awards-record-of-the-year. Winehouse foi premiada com a gravação e canção do ano, artista revelação, melhor álbum Pop e melhor interpretação vocal feminina pop. Opção Lacaniana Online O ardor e a dor de amor 8

13. Site official de Winehouse. Disponível em: www.amywinehouse.co.uk.

14. Várias reportagens sobre a cantora foram realizadas pelo Daily Mail Online, na secção TV&Showbiz. Disponível em: http://www.dailymail.co.uk/tvshowbiz/article-1249013/Amy-WinehouseMaybe-Im-Amys-problem-Mitch-Winehouse-comes-clean.html.

15. Lacan, J. (2003[1974]). Op. cit.

16. Nunes, E. (2008). “Adolescência e corpo: a prostituição e o abuso de droga como sintoma”. Tese de doutorado, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo. Inédito.

17. Lacan, J. (1976). “Discours pendant la séance de clôture”. In Journées des cartels del’École freudienne de Paris. Paris: Lettres de l’Ecole freudienne (18), pp. 263-270.

18. Idem. (1992[1969-1970]). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

19. Idem. (2003[1974]). Op. cit.

20. Idem. (1977[1976]). “Ouverture de la Section clinique”. In Ornicar? (9). Paris, p. 13. E em: Lacan, J. (1977[1976]). “Seminário, L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre”. In Ornicar? (12/13). Paris.

21. Idem. (2007[1975-1976]). Op. cit.

22. Di Ciaccia, A. (1998). “De la fondation par Un à la pratique à plusieurs”. In Préliminaire (9/10), pp. 17-22.

23. Veloso, C. Trecho da música Vaca Profana: “Dona das divinas tetas / Quero teu leite todo em minha alma / Nada de leite mau para os caretas /Mas eu também sei ser careta/ De perto, ninguém é normal[…]”.

24. Gullar, F. (1981). Literatura Comentada. São Paulo: Editora Abril.

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